Notas sobre Lygia Clark: corpo e fantasma

1.

A artista Lygia Clark (1920-1988) afirmava que a chave de sua pesquisa é a participação do público: “a destruição da barreira que separa o espectador da obra e de seu criador”[1]. Algo bastante inovador à época, e talvez até hoje. Podemos dizer que ela funda uma nova concepção de arte e de obra, por ter esgarçado radicalmente seus limites, ao ponto de sua última proposição, Estruturação do Self (1976-1988), ter sido definida como estética e terapêutica[2]. O caráter terapêutico da proposta não a exclui do campo da arte, mas, sobretudo, transforma esse campo. Trata-se de uma intensa relação entre arte e vida, o que permite que a artista promova uma dobra da arte sobre si mesma, subvertendo seu discurso, interrogando seus limites e fundando o novo[3].

A pesquisa de Clark sobre a participação do público, algo bem distinto da arte interativa de hoje, também deve ser encarada como uma abordagem do corpo. “O que me interessa fundamentalmente é o corpo. E atualmente eu já sei que é mais do que o corpo. (…) Então por trás da coisa corporal, é o que vem de mais profundo que interessa”[4], afirma Clark. Mas de que corpo se trata? Até aqui, parece que ainda estamos “no sentido confuso que guarda para nós o termo corpo”, como ressalta Lacan[5].

2.

A partir de 1963, Clark inaugura uma trajetória absolutamente singular, o que coloca em risco a recepção de sua obra[6]. Tudo começa em Caminhando (1963), ainda que possamos entender que seu percurso anterior, desde os anos 1950, a tenha conduzido às proposições dos anos 1960-1980. É em Caminhando que a artista afirma atribuir “uma importância absoluta ao ato imanente realizado pelo participante”[7]. Tesoura na mão, o participante é convocado, por meio de um texto, a produzir e cortar uma banda de Moebius – figura topológica trabalhada e cortada, de forma distinta, por Lacan em 1962[8]. A artista propõe um corte no sentido do comprimento, até que se chegue à parte já cortada, ponto no qual se deve escolher seguir cortando pela direita ou esquerda[9], a cada vez que chega a um corte.

Segundo ela, as propriedades da banda, que quebram “os nossos hábitos espaciais: direita–esquerda, anverso-reverso etc.”, nos fazem “viver a experiência de um tempo sem limite e de um espaço contínuo”, na qual o espectador-autor e o objeto “formarão uma realidade única, total, existencial. Nenhuma separação entre sujeito-objeto. É um corpo-a-corpo, uma fusão”[10].

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